Drogarias dentro de supermercados: tendência, transformação ou ameaça real ao varejo farmacêutico?

Em 23 de março de 2026, o varejo farmacêutico brasileiro acordou diferente. Foi sancionado a Lei nº 15.357/2026, publicada no Diário Oficial da União, que autoriza e regulamenta...

Em 23 de março de 2026, o varejo farmacêutico brasileiro acordou diferente.

Foi sancionado a Lei nº 15.357/2026, publicada no Diário Oficial da União, que autoriza e regulamenta a instalação de farmácias e drogarias na área de vendas dos supermercados. Uma mudança que levou mais de três anos de tramitação, debates acalorados e resistência organizada do setor para, enfim, virar lei.

Mas antes de qualquer conclusão precipitada: essa lei não liberou remédios nas gôndolas. A norma não autoriza a venda irrestrita de medicamentos em supermercados como se fossem produtos comuns de consumo. O que ela faz é algo mais sutil e estrutural.

O que mudou, na prática

A Lei 15.357 cria duas modalidades de operação para farmácias em supermercados: operação direta, sob a mesma identidade fiscal do supermercado (o que implica obter licenciamento farmacêutico próprio), ou operação mediante contrato com farmácia ou drogaria já licenciada.

A farmácia deve operar em ambiente físico delimitado, segregado e exclusivo, com independência funcional em relação às demais áreas. Permanece obrigatória a presença de farmacêutico durante todo o horário de funcionamento, bem como a observância de todos os requisitos de estrutura, armazenamento, rastreabilidade e dispensação. A lei também veda a exposição de medicamentos fora da área da farmácia e estabelece regras específicas para medicamentos controlados.

Em outras palavras: é uma farmácia de verdade, com todas as suas obrigações regulatórias, só que dentro de outro estabelecimento.

Por que isso importa além do espaço físico

O setor supermercadista reúne cerca de 424 mil lojas e atende milhões de consumidores diariamente. Colocar uma farmácia dentro desse fluxo não é só uma questão de conveniência. É uma disputa direta pelo momento de compra, e pela fidelidade do cliente.

A expectativa do setor supermercadista é que a medida aumente a concorrência no mercado farmacêutico, com potencial impacto na redução de preços ao consumidor final e ampliação do acesso a medicamentos. Para o consumidor, isso pode ser positivo. Para quem opera farmácia independente, o cenário exige atenção.

O Brasil conta com aproximadamente 105 mil pequenos negócios no setor de farmácias, e grande parte deles construiu sua relevância em cima de dois pilares: localização e confiança. Ambos agora serão testados.

O que o setor farmacêutico diz

A reação não foi de entusiasmo. O presidente do Conselho Federal de Farmácia, Walter Jorge, avaliou o resultado final como algo em que “o dano foi minimizado”, sinalizando que a versão sancionada, apesar de representar uma concessão, preservou elementos importantes do controle sanitário.

O diferencial que nenhuma lei pode copiar

Aqui está a questão central para quem opera no varejo farmacêutico hoje:

Conveniência, agora, pode estar em qualquer lugar. O que não pode ser replicado facilmente é a relação e acolhimento que o farmacêutico que conhece o paciente pelo nome, que lembra da última receita, que orienta com cuidado.

Segundo Flávio Petry, analista de Competitividade do Sebrae, a nova legislação pode representar uma oportunidade para que as farmácias fortaleçam o relacionamento com seus clientes e destaquem esse diferencial competitivo.

E a tecnologia tem papel decisivo nessa equação. Sistemas integrados de gestão, fidelização, controle de estoque, SNGPC, histórico do cliente, tudo isso vira vantagem competitiva real quando bem utilizado.

Não é sobre ter mais prateleiras.

É sobre conhecer melhor quem entra pela porta.

A pergunta que fica

A Lei 15.357 não encerrou o debate. ela o intensificou.

Farmácias independentes e redes de médio porte estão diante de um cenário que exige mais do que bons produtos. Exige posicionamento, eficiência operacional e, acima de tudo, uma proposta de valor que vá além da localização.

A conveniência se democratizou. A diferenciação, não.

Como a sua drogaria está se preparando para esse novo cenário?

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